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CASO DREYFUS
(dir. francês)
O mais famoso erro judiciário de
todos os tempos, sobre o qual talvez se tenha escrito mais que
sobre o processo de Jesus ou de Sócrates. Alfredo Dreyfus,
capitão israelita do exército francês, foi acusado de ser o
autor de uma carta oferecendo documentos militares aos alemães,
encontrada pelo serviço de contra-espionagem da França.
Condenado em 1894 como traidor, sofreu a deportação para a
Ilha do Diabo e a degradação militar. Começou então uma
campanha de enormes proporções pela revisão do processo e que
dividiu famílias, amigos e toda a França em dois partidos, tal
como o havia feito a Revolução Francesa. Os mais diversos
interesses coligaram-se a favor ou contra o acusado, fazendo
dele uma bandeira de luta. A nobreza, o clero, os anti-semitas,
os reacionários de todo tipo, os militares, eram contra a
revisão, achando que ela colocava em jogo a honra do exército
francês caso as autoridades reconhecessem ter errado na
condenação de Dreyfus, que fora julgado por um conselho de
guerra, de cuja seriedade não se podia duvidar. A esquerda, os
liberais, os progressistas, eram pela revisão e conseguiram
levar a julgamento o verdadeiro culpado, o comandante Esterhazy,
que foi absolvido. Zola então escreve a sua famosa carta ao
presidente da França, Loubert, intitulada "Acuso",
pela qual foi condenado e teve de se exilar na Inglaterra e em
que acusava o conselho de guerra que absolveu Esterhazy de ter
agido assim "por ordem superior". Rui Barbosa,
seguindo a paixão que envolveu o mundo todo pelo processo,
escreveu notável artigo a favor de Dreyfus. A Corte de
Cassação em 1899 manda Dreyfus a novo conselho de guerra, onde
novamente foi condenado e em seguida agraciado pelo presidente
Loubet. Em 1902 novo pedido de revisão é feito e em 1906 a
Corte de Cassação reconhece definitivamente a inocência de
Dreyfus, sem enviá-lo a novo julgamento. Ele foi reintegrado no
exército, lutou na guerra de 1914 e morreu em 1935. Na luta a
favor do acusado salientaram-se grandemente Clemenceau e os
advogados Labori e Demange. O processo revelou o grande senso de
justiça do povo francês e ficou conhecido como
"l'affaire" (o caso) por excelência. Por incrível
que pareça, este homem pelo qual todo o universo se interessou,
quando foi procurado pelo extraordinário jornalista Pierre Van
Paassen para fazer um apelo que impedisse a execução de Sacco
e Vanzetti, só teve uma atitude: "Faça o favor de
retirar-se imediatamente desta casa! " Essa foi a resposta
de um homem pelo qual a França esteve à beira de uma guerra
civil ou uma revolução, como nota o jornalista. Era um
personagem muito pequeno para tão grandes acontecimentos.
Clemenceau, a quem o episódio foi relatado, disse: "Era o
militarista mais arrogante. Dreyfus nunca ocultou o seu desprezo
pela canalha jornalística que Zola e eu representávamos".
B. - Pierre Van
Paassen, Estes dias tumultuosos. Editora Globo. Porto alegre,
1940.
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